A menina e as baratas

Se você decidiu ler este texto, assim como a gente, deve adorar uma boa história pra contar e um perrengue chique. Aqui quem está escrevendo é a Pri, e o que eu vou te contar aconteceu quando morei em New York para fazer intercâmbio, logo depois da faculdade.


As casas do Queens


New York é dividido em vizinhanças, Manhattan (a ilha) e as neighborhoods ao redor: Brooklyn, Bronx, Staten Island e o Queens. Como muitos intercambistas daquela época, eu queria morar em Manhattan, mas tinha acabado de chegar e ainda estava nas acomodações da escola, que eram casas de família fora da ilha.


Depois de ficar quase um mês em uma casa e pedir constantemente para trocar de acomodação (essa é outra história de perrengue pra contar), conseguiram uma vaga para fazer nossa troca.”Nossa” porque eu tinha uma roomie na época e não desgrudava dela por nada, a Yuni (Yoon-hee, em coreano).


As casas do Queens são muito parecidas, geralmente possuem três níveis: o nível da rua, onde normalmente fica a sala, cozinha, um banheiro e um cômodo que pode ser quarto, escritório ou sala de TV; o andar de cima, onde ficam suites, quartos e banheiros; e o basement que fica um nível abaixo da rua e geralmente é onde fica a lavanderia. Alguns proprietários constroem uma mini casa lá também.




Morar no basement, o famoso porão


Quando eu e a Yuni chegamos na nova acomodação, não fazíamos ideia que teríamos uma casa só para a gente. Era um sonho. Os donos do local construíram uma casinha no porão, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Eu e Yuni ficamos muito felizes quando chegamos, afinal tínhamos pago um quarto duplo e ganhamos um apartamento inteiro.


Era tudo muito organizado, a cozinha tinha todos os utensílios que a gente precisava. Desfizemos nossas malas, tomamos um banho e saímos para comemorar nossa nova casinha.


Quando voltamos já era tarde da noite. Dormimos e no dia seguinte saímos cedo para a aula. Estudávamos em escolas diferentes mas da mesma rede, então raramente nos encontrávamos, a não ser que combinássemos.


Naquele dia eu ia para um bar em Midtown Manhattan, inclusive convidei a Yuni para ir comigo, mas ela não quis porque ia chover. Era quase verão, tinha esquentado um pouquinho, e eu estava tão animada com tudo que estava vivendo, que fui comemorar minha mudança mais uma vez.


Por volta das 22h recebo uma ligação da Yuni: Pryh, are u coming home now? (Pri, você tá vindo pra casa agora?). Na hora saquei que tinha algo errado com ela, porque raramente me ligava. Fui pra casa correndo, imaginando só coisa ruim.


Quando chego em casa, abro a porta e vejo uma cena que nunca mais saiu da minha cabeça. A Yuni estava sentada no meio da cama, em posição fetal, com um moletom de capuz cobrindo todo o rosto, deixando apenas seus olhos cheios de lágrimas para fora. E detalhe: a cama estava no meio da sala.


Minha primeira reação foi correr e abraçar a Yuni, pensei que certamente ela havia perdido alguém querido na Coreia, por isso estava naquela situação. Ela me abraçou forte e disse: Pryh, the house is full of roaches. Cockroaches. I wanna go home. (Pri, a casa tá cheia de baratas. Baratas. Quero ir pra casa).


Soltei a Yuni em um pulo e subi em cima da cama, tirando meus pés do chão e olhando para o piso, em busca da tal barata. Foi então que a Yuni me disse que eu não precisava procurar no chão, era melhor eu acender as luzes e olhar as paredes.


Corri para o interruptor, acendi. Queria não ter visto o que vi.


Que eu consegui contar de imediato, OITO baratas. Baratas voadoras. Daquelas que sobrevivem até em Chernobyl. Primeiro instinto: correr.


Mas correr para onde? Voltar a pé para o Brasil? Pegar o primeiro voo de volta? Impossível. E eu amava estar ali, mesmo vendo as baratas me desafiando.Correr não era uma alternativa.


Pegar um chinelo e matar as baratas? Mas como? Eu era uma, elas eram muitas. E se elas se juntassem e me atacassem de volta? Era melhor não mexer com a gangue.


Jogar um inseticida e assassinar as ousadas? Impossível, nossa acomodação não tinha janelas, a gente ia morrer junto com as baratas lá dentro.


Os donos da casa não estavam por lá naquele momento, embora morassem no andar de cima. Estavam no velório de um familiar. Eu só tinha a Yuni e ela a mim.


Já tinha passado de meia noite, então entendi que a Yuni fez a única coisa possível naquele momento, sentar e esperar amanhecer e no dia seguinte pedir para trocar de acomodação na escola.


Vesti meu moletom de capuz por cima da roupa que tinha usado o dia todo, coloquei minha cama no meio do quarto e, assim como a Yuni, apaguei as luzes para tentar dormir. Mas foi impossível dormir, eu ouvia o barulho das patinhas das baratas andando pela parede e não vinha o sono, nem a fome, só o nojo.



Water Bug ou baratas voadoras?


Fiquei a noite toda olhando o relógio e quando deu cinco horas da manhã, saí da cama e fui tomar banho. Ao abrir a porta do banheiro, tinham pelo menos 4 baratas na cortina do box e mais algumas andando na pia. Uma delas na escova de dentes da Yuni.


Desisti do banho e fui até a cômoda pegar uma roupa limpa. Baratas no puxador das gavetas. Mais uma vez desisti e fui para o metrô do jeito que estava mesmo. Cheguei na escola por volta das 6h35 e fui na sala da pessoa que cuidava das acomodações.


Expliquei o que aconteceu, e o rapaz não sabia se ria ou demonstrava empatia. Inclusive citou o filme Joey e as Baratas, perguntou se eu já havia assistido. Eu dei de ombros e falei: Priscila e as baratas, você quis dizer, né?


Após algumas ligações ele conseguiu uma nova acomodação para nós. Minha única exigência era que eu e Yuni ficássemos juntas. Voltei para o metrô correndo, para ajudar a Yuni que tinha ficado em casa arrumando as malas.


Quando cheguei, os donos da casa estavam no porão junto a Yuni, que chorava. Questionei o que estava acontecendo, e eles estavam tentando convencer a gente de ficar lá, alegando que não eram baratas e sim Water Bugs, ou seja, besouros d’água.


Pior ainda se fossem besouros d’água, porque esses insetos são menos amigáveis que as baratas voadoras. Eu era jovem, mas esperta o suficiente para saber diferenciar uma barata de um besouro.


Enquanto eu explicava para eles que não havia a menor chance da gente ficar em uma casa infestada de baratas voadoras, uma delas pousou no ombro da dona da casa, que não sabia se gritava ou fingia que estava tudo bem para ver se a gente ficava.


Outra barata subia pela porta da geladeira enquanto a Yuni guar

Eu cheguei a matar algumas, porque precisava de abrir a geladeira para pegar alguns itens que estavam dentro.


Preocupando os pais do outro lado do mundo


Arrumei minhas coisas e enquanto a Yuni terminava as dela, liguei para os meus pais. Contei o que tinha acontecido e qual a solução que encontramos.


Eles estavam em viagem, fizeram uma parada em um posto para poder me atender. Não sabiam se riam ou choravam. Minha mãe perguntou se eu queria voltar para o Brasil. NÃOOOOOO! Nem baratas nem furacões me fariam voltar (naquele ano teve o Sandy).


Mais comum do que você imagina


Com as malas prontas, fomos para o metrô e nos mudamos para outra casa, desta vez um pouco mais longe da ilha, ainda no Queens. Fiquei feliz que a família que morava na nova acomodação tinha crianças e cachorro, era organizada e divertida.


Quando contamos para eles o que aconteceu, nos informaram que era muito comum acontecer infestação de baratas em New York, além dos ratos e de bed bugs (um inseto que parece pulga, infesta a cama e causa um desconforto enorme com as picadas).


A melhor cena final, foi quando estávamos desfazendo as malas no novo quarto. Yuni estava sentada no chão retirando as roupas da mala, quando percebi que tinha uma barata andando na barriga dela. Gritei! Fechamos a mala, botamos fogo e desta vez fugimos… hahahah


MENTIRA… Não fizemos isso, apenas levamos tudo para a lavanderia e lavamos com água quente, para não ter mais surpresas.


E aí, gostou dessa história? Deixe um comentário. :)


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